Resumo de Geopolítica

A Geopolítica e as Relações Internacionais
‘A política de um Estado é sua geografia’
(Napoleão Bonaparte)

DEFINIÇÃO DE GEOPOLÍTICA

A geopolítica é a disciplina que busca entender as relações recíprocas entre o poder político nacional e o espaço geográfico. Ela procura responder a seguinte questão: até que ponto a ação dos estados nacionais é ou não determinada pela situação geográfica. A geopolítica tem duas finalidades:

1. orientar a atuação dos governos no cenário mundial;
2. permitir uma análise mais precisa das relações internacionais.

OS FUNDADORES DA GEOPOLÍTICA

O raciocínio geopolítico (o aproveitamento do espaço territorial e os limites que este impõe à ação do Poder) sempre influenciou os governantes desde a mais remota Antigüidade. Contudo, a normatização metodológica da geopolítica só ocorreu no século XIX. O “pai” da geopolítica foi um geógrafo alemão FRIEDRICH RATZEL (1844-1904), autor do livro “ANTROPOGEOGRAFIA – FUNDAMENTOS DA APLICAÇÃO DA GEOGRAFIA À HISTÓRIA”, que formulou conceitos fundamentais para a abordagem geopolítica da realidade internacional. Em primeiro lugar, a função do Estado, é expandir e defender o espaço territorial nacional e, além disso, Ratzel conceituava que as fronteiras nacionais são móveis, pois são determinadas pela capacidade político-militar de ampliá-las e de as manter.

Importante é ressaltar que Ratzel reflete o momento histórico da unificação da Alemanha pela Prússia, processo marcado pela expansão militar. A Alemanha Imperial (o IIº Reich) surgiria em 1871 após três guerras: a “dos Ducados”, contra a Dinamarca (1864), a “Guerra Austro-Prussiana” (1866) e a “Franco-Prussiana” (1870). O raciocínio de Ratzel expressa esta íntima ligação entre “unidade política” (proposta de unificação nacional), necessidade de expansão territorial e poder militar. Nos Estados Unidos da América, o almirante ALFRED THAYER MAHAN, outro precursor da geopolítica, elaborou uma proposta global para seu país. Segundo sua visão, os EUA eram uma “grande ilha” cercada por dois enormes oceanos: o Atlântico e o Pacífico. Portanto, seria um país quase impossível de ser invadido, contanto que tivesse como aliados o Canadá e o México. Mas, também seria fundamental
manter a América Central como “zona de influência”. Potência insular, os EUA não precisariam de um exército forte, mas de esquadras navais poderosas: uma no Pacífico e outra no Atlântico. Estas frotas, numa emergência, se ajudariam: daí a necessidade de uma passagem entre o Atlântico e o Pacífico próxima ao território norte-americano. Nascia, assim, o projeto do Canal do Panamá. Mahan, em seu livro

“O PROBLEMA DA ÁSIA E SEU EFEITO SOBRE A POLÍTICA INTERNACIONAL”,

defende a idéia de que as potências marítimas tendem a ser dominantes, pois são capazes de manter o controle de áreas ao redor do continente euroasiático, então o “núcleo sócio-econômico-político” do mundo. De fato, a Eurásia pode ser definida como uma enorme massa territorial contínua cuja segurança  depende, fundamentalmente, da ação de forças militares terrestres. Em síntese, as nações euroasiáticas teriam uma mentalidade estratégica fundada nos exércitos; os países periféricos à Eurásia optariam pelo poder naval – atualmente, aeronaval. Na gíria geopolítica: as nações “baleias” versus os países “ursos”.

fig1
Em 1904, o britânico John Mackinder, difundiu a teoria de que a ”Heartland” (“CORE“ – “terra coração”, “região núcleo”) do mundo, em função da sua massa territorial, seria a Eurásia, notadamente a região compreendida entre a Alemanha e a Rússia. No entender de Mackinder, a potência que controlasse essa área seria hegemônica em relação às nações marítimas que, por seu turno, dominariam a “Ilha Mundial” (“World Island”), isto é, os espaços do planeta periféricos ao continente eurasiano. Historicamente, as nações que buscaram o domínio do “core” euroasiático foram, em tempos recentes, a Alemanha e a Rússia; as que buscaram o poderio naval foram, de início, a Inglaterra, e, em seguida, os EUA. Mahan e Mackinder concordavam quanto à existência do conflito entre a “baleia” e o “urso”, só que o americano privilegiava o poder naval e o britânico realçava o papel estratégico das forças terrestres.

As concepções geopolíticas foram, finalmente, sistematizadas pelo sueco RUDOLF KJELLEN que inspiraria os teóricos do Instituto Geopolítico de Munique, cujo diretor foi o general KARL HAUSHOFER . A geopolítica alemã se baseava em três noções: toda potência precisa controlar um espaço geográfico suficientemente grande para garantir sua segurança e possibilitar uma lucrativa exploração econômica;

existe a “Ilha Mundial”, o que levou a Alemanha a criar um poder naval;
as áreas hegemônicas do Hemisfério Norte (EUA, Alemanha, Rússia e a então “zona de co-prosperidade asiática, controlada pelo Japão) deveriam subordinar o Hemisfério Sul.

Tal visão geopolítica fundamentou a expansão da Alemanha Nazista (1933-1945), cuja teoria do “LEBENSRAUM” (“espaço vital”) visava anexar áreas territoriais onde houvesse habitantes de “sangue alemão”, definidos como um povo “viril e vigoroso”. Nesse caso, a geopolítica foi uma arma conceptual nas mão de genocidas e violadores dos valores humanistas. Na década de 30, o geopolítico NICHOLAS SPYKMAN defendeu a idéia de que o expansionismo alemão só seria barrado por meio de uma aliança entre o poderio naval anglo-americano e a Rússia, potência militar terrestre. Para Spykman, o controle do “Heartland” euro-asiático era menos importante do que o domínio do RIMLAND (o “anel marítimo”).
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando do início da “Guerra Fria” (o conflito político e ideológico, por vezes marcado por “guerras limitadas”, entre as nações ocidentais, lideradas pelos EUA e as subordinadas à URSS), os EUA retomaram a teoria de Spykman, buscando cercar o país dos “soviets” através de forças aeronavais.

O USO CORRETO DA GEOPOLÍTICA

O raciocínio geopolítico é útil quando:
1. foge a um estrito determinismo geográfico
2. os dados culturais, sociais, econômicos e as relações de forças políticas são levadas em conta.

As Primeiras Teorias das Relações Internacionais
Conflitos, trocas comerciais e pactos entre as diversas comunidades sempre existiram. Contudo, a noção de relações internacionais é recente, já que o surgimento dos “Estados Nacionais” data do final da Idade Média. De fato, o “Estado – Nação” começa a se consolidar a partir dos séculos XVI e XVII, daí a necessidade de teorias políticas que justificassem e legitimassem a sua existência e orientassem suas ações em relação a outros estados.
No século XVI, na Itália surgiria a

 

“ESCOLA DE PENSAMENTO POLÍTICO VENEZIANO – FLORENTINA”

 

que formulou o conceito de “razão de estado”. Essa noção implica que a Ética e o Direito são determinados pelos interesses do poder político: é “justo” o que é útil para o Estado, é “certo” o que o Estado define como tal. Em suma: a necessidade determina a lei. Quando de sua formulação inicial, o principio da “razão de estado” significava a vontade do governante e/ou de sua dinastia. O “interesse do estado” era o desejo do “Príncipe”. Os conflitos internacionais foram, no século XVI e XVII, determinados pelos interesses monárquicos. Naquela época, nos canhões dos estados nacionais, então ainda embrionários, estava escrita a frase: “a última razão dos reis”. Noutros termos, não satisfeitas as exigências do Príncipe, seriam ouvidas as vozes tonitroantes dos canhões. Pouco a pouco, os estados modernos – inicialmente expressões das monarquias nacionais – passaram a ser definidos como “estados nacionais”. Com efeito, a partir do século XVIII, a “razão de estado”, até então a vontade do governante, adquiriu o sentido da defesa das  aspirações das “comunidades nacionais”. Surgia o conceito de nação.
Isto ocorreu, de início, na França, quando do Absolutismo da dinastia Bourbon. Para os filósofos políticos, tornava–se premente definir o conceito de Nação, pois os Tempos Modernos ( período compreendido entre os séculos XVI e XVIII) firmaram o preceito de que Nação só existe quando regida por um Estado.

NAÇÃO: UM CONCEITO COMPLEXO

Na Europa Oriental, “nação” sempre implicou “origem étnica”: é sérvio quem tem ”sangue sérvio”; poloneses são aqueles que possuem “origem racial polonesa” e assim por diante. Modernamente, a Antropologia ( ciência que estuda as estruturas culturais das comunidades humanas ) não mais aceita a noção de “raça”. No mundo ocidental, nação significa uma coletividade de mesmas raízes culturais, ritos e símbolos comuns e dotada de um projeto político – sócio – cultural uniforme. Em suma, uma nação se define culturalmente e não racialmente. Exemplo disso: os brasileiros formam uma nação, embora as origens étnicas sejam múltiplas: italianos, portugueses, espanhóis, japoneses, africanos, etc. Atualmente, a Filosofia do Direito conceitua que uma nação é uma comunidade, étnica e socialmente diversificada, política e juridicamente organizada pelo Estado.

MAPA POLÍTICO EUROPEU DO SÉC. XVIII

AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DOS TEMPOS MODERNOS

Entre os séculos XVI e XVIII, o mundo europeu foi marcado pelo conflito entre os “estados nacionais” emergentes  (França, Inglaterra, etc.) e os “Impérios multinacionais” ( Sacro Império Romano – Germânico, depois Império Austro – Húngaro, Império Russo e Império Turco – Otomano ). No século XIX, esse confronto faria aflorar a “questão das nacionalidades”. Passaria a imperar o conceito de que cada comunidade nacional deveria ter seu Estado. No ano de 1848, denominado de a “Primavera dos Povos”, eclodiram revoluções nacionalistas na Polônia, na Hungria, na Alemanha e o Reino do Piemonte tentou, infrutiferamente, unificar a Itália. Assim, no século XIX, a realidade política do “estado nacional” gerou a ideologia do “nacionalismo”.

As relações internacionais européias, ao longo dos Tempos Modernos, oscilaram entre tentativas de hegemonismo e períodos marcados pelo “equilíbrio de poder”. No século XVI, o cenário político do Velho Continente foi marcado pelo predomínio da dinastia dos Habsburgos, família que reinava na Espanha e no Sacro Império Romano – Germânico, que compreendia o centro e o leste europeus. Na ocasião, a França se via cercada pelo “anel de ferro Habsburgo”, que limitava a projeção internacional da dinastia Bourbon. De fato, a França se confrontava com Habsburgos na Espanha, nos Países Baixos ( atualmente, Holanda, Luxemburgo e Bélgica ) e no Sacro Império Romano – Germânico.

No século XVII, quando da “Guerra dos Trinta Anos” ( 1618 – 1648 ), a França, vitoriosa, quebrou o “anel de ferro Habsburgo”, tornando – se hegemônica na Europa. Este triunfo francês foi formalizado  pela “Paz de Westphalia” ( 1648 ), que significou a primeira vitória de um estado nacional – a França – sobre um império multinacional – o Sacro Império. O Estado – Nação, pela primeira vez, se impunha sobre uma entidade imperial. No cenário mundial, começava a predominar a modernidade política.

A hegemonia francesa ao longo do século XVIII seria contestada pelo interesse inglês de estabelecer na Europa o “equilíbrio de poder”. A Inglaterra desejava que, na Europa Continental, nenhuma nação fosse dominante em relação às demais. Assim, o governo britânico promoveu a “política da gangorra”: se uma determinada nação se tornasse mais forte do que as outras, a Inglaterra se posicionaria ao lado dessas últimas. Em termos geopolíticos, o “fiel da balança” europeu passou a ser a Inglaterra.

No início do século XIX, Napoleão Bonaparte, afrontando a Inglaterra, a Áustria, a Prússia e a Rússia, buscou novamente tornar a França hegemônica na Europa. Sua derrota, na batalha de Waterloo ( 1815 ), levou as nações do Velho Continente a buscar, uma outra fórmula para estabelecer o “equilíbrio de poder” na Europa.

O Eterno Sonho da Diplomacia: O Equilíbrio do Poder
EUROPA DA PRIMEIRA METADE DO SÉC. XIX

O panorama político europeu do século XIX foi totalmente modelado pelo conceito geopolítico do “equilíbrio de poder”. Prevaleceu, então, a REALPOLITIK , ou seja, o princípio de que as relações internacionais não devem ser norteadas pela ética ou ideologias, mas, sim, pela defesa dos interesses nacionais. Em suma, os estados não têm “amigos” e nem compartilham ideais, simplesmente fazem valer seus objetivos econômicos e políticos. No cenário internacional, o realismo amoral deve conduzir a ação dos estados.

Este novo projeto de “equilíbrio europeu” nasceu no CONGRESSO DE VIENA (1814 – 1815), quando as principais nações européias – França, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria – buscaram:

1. restaurar o Absolutismo
2. estabelecer o equilíbrio de forças no Velho Continente.

Cada um daqueles países tinha propósitos específicos e outros comuns a todos. A França, representada por Talleyrand, temia que seu solo fosse ocupado pelas nações que haviam vencido Napoleão Bonaparte.
Agora, vivendo a Restauração dos Bourbons ( a volta ao poder da nobreza liderada por Luís XVIII ), a França desejava preservar a integridade de seu território e legitimar a retomada de um regime absolutista.

A Rússia, cuja delegação enviada ao congresso era encabeçada pelo Tzar Alexandre I, postulava o regresso ao Antigo Regime ( a realidade política anterior à Revolução Francesa ). A Prússia, na pessoa do rei Frederico Guilherme III, além dos mesmos propósitos restauradores, já desejava unificar todos os estados alemães sobre a tutela de Berlim. A Inglaterra, representada por Castlereagh, ambicionava projetar seu poderio sobre as regiões periféricas ao Velho Continente e estabelecer, na Europa Continental, um “equilíbrio de poder” entre as nações.

No entanto, a “estrela” do congresso de Viena foi o chanceler austríaco Metternich. De fato, a Áustria conhecia um espinhoso problema: o mosaico étnico. O Império Austríaco era habitado por germânicos, húngaros e inúmeros povos eslavos. Por consegüinte, se cada uma dessas comunidades adotasse idéias nacionalistas, aspirando ao seu próprio estado, todo império se esfacelaria. Assim, era necessário extirpar os sonhos nacionais de cada uma das etnias dominadas pelo governo de Viena. Com esse propósito, Metternich propôs o “CONCERTO EUROPEU”, também conhecido como “SISTEMA METTERNICH”, pelo qual seria criada a “QUÍNTUPLA ALIANÇA” (Inglaterra, França, Prússia, Rússia e Áustria), que teria o papel de esmagar todos os levantes liberais e nacionalistas que ocorressem no continente europeu. Estas nações passariam a desempenhar o papel de “bombeiros” da Europa, “apagando os incêndios” liberais e nacionalistas que eventualmente ocorressem no Continente. Além da proposta austríaca, foram aprovados, no Congresso de Viena, o “PRINCÍPIO DA LEGITIMIDADE”, pelo qual só seriam válidas as dinastias reinantes e as fronteiras anteriores à Revolução Francesa, e a criação da “SANTA ALIANÇA”,
cujo propósito era idêntico ao do “Concerto Europeu”.

Estabelecia-se, desta forma, um sistema internacional baseado num equilíbrio de forças voltado ao objetivo de impedir toda e qualquer transformação social e política na Europa. Inegavelmente, tal esquema manteve a paz européia, somente quebrada por pequenos conflitos, durante um século ( a “Paz dos Cem  Anos” ), pois o interesse comum de preservar o equilíbrio multipolar fez com que cada uma das nações européias não desejasse destruir as outras, já que se isso ocorresse todo o sistema entraria em colapso. O século XIX, foi sem dúvida, a concretização do eterno e delirante sonho da diplomacia: a estabilidade entres os poderes nacionais.

O SISTEMA EM CRISE

No final do século XIX, o equilíbrio do sistema internacional europeu foi vitimado por uma série de crises.  Inúmeras foram as razões de tal desequilíbrio. Em primeiro lugar, povos submetidos aos grandes impérios desejavam edificar seus estados, abalando o Império Austro-Húngaro, o Russo e o Turco-Otomano.  Irrompiam, na Europa do leste, fortes nacionalismos, notadamente o eslavo e o magiar. Além disso, a unificação da Alemanha, em 1871, quebrava a hegemonia militar e política francesa na Europa Ocidental, criando uma turbulência no “Concerto Europeu”. Turbulência esta, de início, de conseqüências limitadas, pois a Alemanha de Bismarck ainda não tinha pretensões de hegemonia mundial, limitando-se a impor  seus interesses na Europa Central. O chanceler alemão temia uma vingança francesa pela derrota de 1870 e buscava alianças no leste. De fato, Bismarck encabeçou a formação da “Aliança dos Três Imperadores”, agrupando Alemanha, Rússia e Austro-Hungria, visando impedir que a França conseguisse aliados na Europa Oriental. Berlim temia que a Alemanha, pela sua posição geográfica, fosse cercada por inimigos a oeste e a leste: o eterno “fantasma” que sempre aterrorizou a nação alemã, a guerra em “duas frentes”. A França, desejosa de revidar a vitória alemã na “Guerra Franco – Prussiana” e recuperar as províncias da Alsácia e Lorena, busca desmembrar a aliança “costurada” por Bismarck.

Outro fator de abalo do sistema europeu foi a “questão do Oriente”. A Inglaterra levava a efeito uma sútil política de enfraquecer o já debilitado império Turco-Otomano, sem, contudo, destruí-lo  completamente para evitar a hegemonia russa nas regiões turcomanas, o que ameaçaria a presença britânica na Índia. Nas últimas décadas do século XIX, travaram-se as desgastantes guerras russo-britânicas pela posse do Afeganistão. Estes conflitos receberam a denominação de o “Grande Jogo”. As outras potências européias tinham também suas ambições: a França aspirava ao controle da Síria e do Líbano, a pretexto de proteger os cristãos contra os muçulmanos; a Alemanha desejava uma presença no Golfo Pérsico, onde já fora descoberto petróleo. Berlim, então, acalentou o louco sonho de construir a estrada de ferro Berlim-Bagdá e aliou-se aos turcos, alegando que protegeria o Império Otomano contra a ameaça anglo-francesa. A partir de 1909, os exércitos do sultão passaram a ser treinados por instrutores alemães. A Rússia, interessada em penetrar nos “mares quentes”, precisava controlar os estreitos turcos do Bósforo e Dardanelos, passagem obrigatória entre o Mar Negro e o Mediterrâneo. Por fim, a Inglaterra, além de cobiçar regiões no Oriente Médio, controlava boa parte da África Negra. Tais pendências, embora  envolvessem regiões extra – européias, repercutiam no Velho Continente, ameaçando a “Paz dos Cem Anos”.

A hegemonia dos imperialismos neocolonialistas ingleses e franceses provocou a ira germânica, já que à Alemanha restaram áreas geográficas de baixos recursos econômicos que não interessavam a Londres e a Paris. No famoso “Congresso de Berlim” (1885), onde se partilhou a África Negra, a Inglaterra e a França “jantaram” a melhor parte do Continente Negro. A Alemanha chegara tarde ao “banquete”, portanto com maior “apetite”, que não foi satisfeito.

 

EUROPA DA SEGUNDA METADE DO SÉC. XIX

O Equilíbrio se rompe: A Grande Guerra
O MUNDO DIVIDIDO: IMPÉRIOS EM 1914

Na Primeira Guerra Mundial ( 1914 – 1918 ), o sistema de poder criado no Congresso de Viena entraria em colapso. Os principais fatores que levaram a “Grande Guerra” foram:

1. o Pangermanismo, isto é, as aspirações territoriais alemãs ampliadas pela ascensão ao poder, em 1882, do  Imperador Guilherme II, cujo projeto era a WELTMACHTPOLITIK ( Política de Poder Mundial ). Este objetivo germânico levou a uma “corrida armamentista” conhecida como a “Paz Armada”. Berlim buscou, com êxito, formar um exército superior ao francês e uma marinha pelo menos igual à britânica. Uma verdadeira “corrida às tonelagens” passa a existir entre Inglaterra e Alemanha: navios cada vez mais pesados e artilhados. Agora, Berlim não só atemorizava a França, mas também a Grã – Bretanha, única nação detentora de uma “blue sea navy” ( “marinha de longo alcance” ). Toda essas ambições germânicas eram “legitimadas pelo mito da superioridade da cultura alemã, a única efetiva “guardiã dos valores do Ocidente”;

a “Enferma do Levante” . As principais nações da Europa tinham o interesse de desmembrar o decadente Império Turco – Otomano, cujos recursos petrolíferos e seu domínio sobre áreas estratégicas do Oriente Médio atraíam a cobiça das grandes potências. O grau de enfraquecimento e corrupção do sultanato turco é explicitado pelo apelido a ele dado: o “Homem Doente da Europa”;

o Pan-eslavismo e a “Monarquia Dual”. A Rússia desde o século XVII, sonhava dominar a Europa do Leste em nome da “proteção” aos povos eslavos ali presentes. O grande obstáculo às pretensões de Moscou era a existência, na Europa Central, do Império Austro – Húngaro ( denominado de “Monarquia Dual” ), que exercia na região o papel de um “Estado Tampão”, barrando as investidas russas. No entanto, Viena tinha um “calcanhar de Aquiles” – seu mosaico étnico. De fato, no Império habitavam germânicos, magiares, tchecos, croatas, eslovenos, poloneses, rutenos, além de outras inúmeras nacionalidades. Com exceção dos germânicos e húngaros, todas as outras minorias governadas por Viena eram eslavas e, portanto, muito suscetíveis à propaganda pan-eslavista. A Rússia fomentava um nacionalismo eslavófilo buscando “implodir” o Império Austro – Húngaro e assim tornar possível a presença dos súditos de Moscou na Europa Oriental;

o “revanchismo” francês. Paris desejava se vingar do desastre que fora a batalha de Sedan, durante a “Guerra Franco – Prussiana”, e recuperar as províncias carboníferas da Alsácia e Lorena. Em todo o território francês, corria o  “slogan” – “não se esqueçam dos alemães”;

A “Política das Alianças”. Rompida a “Aliança dos Três Imperadores” ( Alemanha, Áustria e Rússia ), um acordo politicamente insustentável, pois Viena e Moscou eram potencialmente conflitantes, a França buscou fazer do  governo de Moscou seu aliado, no que teve êxito. Assim, a Alemanha se viu cercada por um inimigo a oeste, a  França, e outro a leste, a Rússia. Ao mesmo tempo, a Inglaterra e a França, após pequenas escaramuças, firmavam, em 1903, a “Entente Cordiale” ( o “Acordo Amigável” ) pela qual partilhariam amigavelmente a África do Norte. Surgiria, então, a “Tríplice Entente”, agrupando Inglaterra, França e Rússia. Em represália, a Alemanha criou a “Tríplice Aliança”, englobando os governos de Berlim, Viena e Roma. Na primeira década do século XX, o equilíbrio multipolar era substituído por uma perigosa bipolarização. O Velho Continente estava em “pé de guerra”;

A POLÍTICA DAS ALIANÇAS

fig2

A competição industrial. A “Grande Guerra” teve também como causa a competição econômica entre a Alemanha, França e Inglaterra. Entre 1871 e 1900, o Reich germânico conheceu uma industrialização muito rápida. Isto pode ser comprovado se observamos o crescimento da siderurgia alemã – em 1870, a produção de aço da Alemanha era inferíor à da França; 30 anos depois, era superior à produção somada da Inglaterra e França. Além disso, ciente de que, pela falta de recursos naturais em abundância, não tinha condições de competir quantitativamente, Berlim optou pela “qualidade” de seus produtos. Seus manufaturados eram muito mais caros do que os franceses e ingleses, mas primavam pela excelente feitura. Nascia, então, o que até hoje subsiste: o mito da alta qualidade das máquinas alemãs. A agressividade industrial e comercial da Alemanha assustava os empresários franceses e britânicos. Em todo o planeta, proliferavam artigos germânicos

 

POVOS BALCÂNICOS

Todas estas crises européias, aparentemente desligadas umas das outras, se fundiriam quando uma “reação em cadeia”, gerada pela “questão balcânica”, as transformaria em causas da conflagração iniciada em  agosto de 1914. Nos Bálcãs, uma “potencia regional” – a Sérvia ( capital: Belgrado ) – desejava criar a “Grande Sérvia”, reunindo sob o governo de Belgrado todos os sérvios da região. O grande obstáculo a  esse sonho era o fato de que a Áustria anexara a Bósnia – Herzegovina, onde quase metade da população era de religião mulçumana, que convivia com uma enorme minoria sérvia e com uma presença de croatas relativamente pequena. Este diversificado cenário étnico era complicado por divergências religiosas, pois os sérvios são cristãos ortodoxos, ou seja ligados à Igreja Greco-Cismática, e os croatas são católicos.
Agravando a situação, por si só já um “barril de pólvora”, a Rússia, a maior potência eslava e ortodoxa do mundo,  como não poderia deixar de ser, apoiava as aspirações sérvias. Além da identidade étnico – religioso, a Rússia, com a formação da “Grande Sérvia”, passaria a ter bases navais no mar Mediterrâneo, concretizando, assim, o sonho da presença nos “mares quentes”.

No Império Austro – Húngaro, certos segmentos da burguesia e da aristocracia propunham a transformação da “monarquia dual” ( Viena e Budapeste ) numa “monarquia trial” ( que abrangeria Áustria, a Hungria e os povos eslavos balcânicos ). Obviamente, esta proposta era inaceitável para a Sérvia, pois dificultaria o projeto da “Grande Sérvia”. Em junho de 1914, o herdeiro da Coroa austríaca, o Arquiduque Francisco Ferdinando – defensor do “trialismo” – visitou Sarajevo ( capital da Bósnia ). A motivação desta viagem era simples: passar em revista as tropas austríacas que ocupavam a Bósnia – Herzegovina. Jovens militantes do movimento “Jovem Bósnia”, sociedade secreta de sérvios bosníacos favoráveis à “Grande Sérvia” e financeiramente sustentados pela organização terrorista sérvia denominada a “Mão Negra”, levantaram a hipótese de que Francisco Ferdinando viria a Sarajevo no intuito de proclamar a “monarquia trial”. Resolveram assassiná-lo. No dia 28 de junho, o estudante Gavrilo Prinzip, líder da “Jovem Bósnia”, matou Francisco Ferdinando e sua esposa, a Baronesa Sofia. A Áustria acusou a Sérvia de ser a mandante do crime; Belgrado negou qualquer responsabilidade em relação ao assassinato   do herdeiro do trono austríaco. Viena mobiliza tropas, a Sérvia chama seus reservistas e se prepara para a guerra. A Alemanha, aliada da Áustria, também mobiliza seus soldados e, simultaneamente, a Rússia, que firmara um acordo secreto com a Sérvia, entra em estado de alerta. A morte do Arquiduque Francisco Ferdinando, numa pequena e remota localidade do sul da Península Balcânica, coloca a Europa à beira do abismo da guerra. Acreditando que, nessa circunstância, a nação que desse início ao conflito teria mais chances de vitória, o Imperador alemão, Guilherme II, ordenou a implementação do “Plano Schlieffen”.

Este fora concebido em 1909, pelo general Schlieffen, para fazer face à eventualidade de uma “guerra em duas frentes”. Neste caso, no entender do general, a Alemanha deveria lançar todas as suas forças contra a França, enquanto tropas austríacas barrariam as investidas russas. Ocupado o território gaulês, o exército  e as Relações Internacionais germânico golpearia mortalmente as trop as russas. Para a infelicidade do governo de Berlim, nos meses iniciais da Primeira Guerra Mundial ( 1914 – 1918 ), os alemães não venceram a França e os austríacos não detiveram os russos. Assim, as forças militares germânicas se dividiram para enfrentar, simultaneamente, os ingleses e franceses na Europa Ocidental e as tropas de Moscou no leste do Velho Continente. A derrota alemã era inevitável.


 

DA PAZ A GUERRA

“Durante o debate de 27 de marco de 1900 expliquei.. . que eu entendia por política mundial tão-somente o apoio e o avanço nas tarefas geradas pela expansão de nossa indústria, de nosso comércio, da força de trabalho, da atividade e da inteligência de nosso povo. Não temos a intenção de  implementar uma política agressiva de expansão. Queríamos apenas proteger os interesses vitais que conquistamos no mundo inteiro, no desenrolar natural dos acontecimentos.”
Chanceler alemão von Büllow, 1900

“Não é certo que uma mulher vá perder seu filho se ele for para o front; na verdade, a mina de carvão e o pátio de manobras de uma ferrovia são lugares mais perigosos que o campo militar.” Bernard Shaw, 1902

“Glorificaremos a guerra – a única higiene do mundo – , o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo dos construtores da liberdade, belas idéias pelas quais vale a pena morrer e que as mulheres desprezam” F. T. Marinetti, 1909

” A partir de agosto de 1914, a presença da guerra mundial rondou, impregnou e assombrou a vida dos europeus. Quando da redação do presente texto, a maioria das pessoas deste continente, com mais de setenta anos, passou ao menos por uma parte de duas guerras na curva de suas vidas; todas as de mais de cinqüenta, com exceção dos suecos, suíços, irlandeses do sul e portugueses, tem a experiência de ao menos parte de uma delas. Mesmo os nascidos depois de 1945, depois de as armas terem silenciado nas fronteiras dos países europeus, conheceram raros anos em que em algum lugar do mundo não houvesse guerra, e viveram a vida toda com o sombrio espectro de um terceiro conflito mundial, nuclear, mantido sob controle apenas pela infindável concorrência visando a garantir  a destruição mútua, como praticamente todos os governos lhes disseram. Como podemos chamar tal é poca de tempo de paz, mesmo que a catástrofe global esteja sendo evitada por quase tanto tempo quanto o foi uma guerra importante entre potenciais européias, entre 1871 e 1914. Pois, como observou o grande filosofo Thomas Hobbes, a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas é suficientemente conhecido.

Quem pode negar que esta seja a situação do mundo desde 1945? Não era assim antes de 1914: a paz era o quadro normal e esperado das vidas européias. Desde 1815 não houvera nenhuma guerra envolvendo as potências européias. Desde 1871, nenhuma nação européia ordenara a seus homens em armas que atirassem nos de qualquer outra nação similar. As grandes potências escolhiam suas vítimas no mundo fraco e não-europeu, embora às vezes calculassem mal a resistência de seus adversários: os boers deram aos britânicos muito mais trabalho que o esperado e os japoneses conquistaram seu lugar entre as grandes nações ao derrotar a Rússia em 1904-1905. Surpreendentemente com poucos transtornos.

No território da maior e mais próxima vítima potencial – o Império Otomano, há muito em processo de desintegração, a guerra era, de fato, uma possibilidade permanente, dado que os povos a ele submetidos procuravam se estabelecer ou se expandir como Estados independentes e, por conseguinte, guerreavam  entre si, arrastando as grandes nações em seus conflitos. Os Bálcãs eram conhecidos como o barril de pólvora da Europa, e foi, de fato, ali que a explosão global de 1914 começou. Mas a “Questão Oriental” era um ponto conhecido da pauta da diplomacia internacional, e embora tivesse gerado crises internacionais sucessivas durante um século, inclusive uma guerra internacional bastante substancial (a Guerra da Criméia), nunca escapara totalmente ao controle. Ao contrário do Oriente Médio, desde 1945 os Bálcãs pertenciam, para a maioria dos europeus que não viviam ali, ao reino das estórias de aventuras, como as do autor alemão de literatura infantil Karl May, ou das operetas. A imagem das guerras balcânicas, no final do século XIX, era a do livro “Arms and the Man”, de Bernard Shaw, que, caracteristicamente, foi transformado em musical (The Chocolate Soldier, de um compositor vienense, 1908).

A possibilidade de uma guerra generalizada na Europa fora, é claro, prevista, e preocupava não apenas os governos e as administrações, como também um público mais amplo. A partir do início da década de 1870, a ficção e a futurologia produziram, sobretudo na Grã-Bretanha e na França, sketches, geralmente não realistas, sobre uma futura guerra. Na década de 1880, Friedriech Engels já analisava as probabilidades de uma guerra mundial, enquanto o filósofo Nietzsche, louca porém profeticamente, saudou a militarização crescente da Europa e predisse uma guerra que “diria sim ao animal bárbaro, ou mesmo selvagem, que existe entre nós”. Na década de 1890, a preocupação com a guerra foi suficiente para gerar o Congresso Mundial (Universal) para a Paz – o vigésimo primeiro estava previsto para setembro de 1914, em Viena – , o Prêmio Nobel da Paz (1897) e a primeira das Conferências de Paz de Haia (1899), reuniões internacionais de representantes majoritariamente céticos de governos e a primeira de muitas das reuniões que tiveram lugar desde então, nas quais os governos declararam seu com promisso decidido, porém teórico, com o ideal da paz. Nos anos 1900, a guerra ficou visivelmente mais próxima e nos anos 1910 podia ser e era considerada iminente.

E contudo sua deflagração não era realmente esperada. Nem durante os últimos dias da crise internacional – já irreversível – de julho de 1914, os estadistas, dando os passos fatais, acreditavam que realmente estivessem dando início a uma guerra mundial. Uma fórmula seria com certeza encontrada, como tantas vezes no passado. Os que se opunham a guerra também não podiam acreditar, que a catástrofe há tanto tempo predita por eles, chegara. Bem no final de julho, depois da Áustria ter declarado guerra à Servia, os líderes do socialismo internacional se reuniram, profundamente abalados, mas ainda convencidos de que uma guerra generalizada era impossível e que uma solução pacífica para a crise seria encontrada.

“Eu, pessoalmente, não acredito que haverá uma guerra generalizada”, disse Victor Adler, chefe da social-democracia do Império Habsburgo, no dia 29 de julho. Nem aqueles que estavam apertando os botões da destruição nessa acreditavam, não porque não quisessem, mas porque era independente de sua vontade: como o imperador Guilherme, perguntando a seus generais, no último minuto, se a guerra, afinal de contas, não poderia ser situada na Europa Oriental se se evitasse atacar a França e a Rússia – e ouvindo a resposta de que infelizmente isso era impraticável. Aqueles que haviam construído os mecanismos da guerra e ligado os interruptores, agora estavam vendo, com uma espécie de incredulidade estupefata, as engrenagens começarem a se por em movimento. Para os que nasceram após 1914, é difícil imaginar como a crença de que uma guerra mundial não podia  realmente” acontecer estava profundamente enraizada no tecido da vida antes do dilúvio.

Assim, para a maioria dos Estados Ocidentais, e na maior parte do tempo entre 1871 e 1914, uma guerra européia era uma lembrança histórica ou um exercício teórico para um futuro indefinido. A principal função dos exércitos em suas sociedades durante esse período era civil. O serviço militar obrigatório – alistamento – agora era a norma em todas as nações de peso, com exceção da Grã-Bretanha e dos EUA, embora, na verdade, nem todos os rapazes de fato se alistassem; e, com a ascensão dos movimentos de massas socialistas, generais e políticos às vezes ficavam nervosos, erroneamente, como veio a ser evidenciado ao pensar em por armas nas mãos de  proletários potencialmente revolucionários. Para os recrutas comuns, mais familiarizados com a servidão do que com as glórias da vida militar, entrar para o exército se tornou um rito de passagem que marcava a chegada de um garoto à idade adulta por dois ou três anos de treinamento e trabalho duro, que se tornavam mais toleráveis devido a notória atração que a farda exercia sobre as moças. Para os suboficiais profissionais, o exército era um emprego. Para os oficiais, um jogo infantil onde quem brincava eram os adultos, símbolo de sua superioridade em relação aos civis, de esplendor viril e de status social. Para os generais era, como sempre, o terreno propício às intrigas políticas e ciúmes relativos à carreira, tão amplamente documentada nas memórias dos chefes militares.

Para os governos e as classes dirigentes, os exércitos eram não só forças para enfrentar inimigos internos e externos, mas também um modo de garantir a lealdade, ou mesmo o entusiasmo ativo, de cidadãos com simpatias inquietantes por movimentos de massas que solapavam a ordem política e social. Junto com a escola primária, o serviço militar era talvez o mecanismo mais poderoso à disposição do Estado com vistas à inculcação do comportamento cívico apropriado e, não menos importante, a transformação do habitante de um povoado no cidadão (patriota) de uma nação. A escola e o serviço militar ensinaram os italianos a compreender, se não a falar, a língua “nacional” oficial, e o exército fez do espaguete, anteriormente prato regional do sul empobrecido, uma instituição de toda a Itália. No que tange à população civil, o colorido espetáculo público da exibição militar foi multiplicado para seu divertimento, inspiração e identificação patriótica: paradas, cerimônias, bandeiras e música. O aspecto mais  familiar dos exércitos, para os habitantes não-militares da Europa, entre 1871 e 1914, era provavelmente a onipresente banda militar, sem a qual era difícil imaginar os parques e os festejos públicos.

Naturalmente, os soldados e, bem mais raramente, os marinheiros de vez em quando desempenhavam suas funções básicas. Podiam ser mobilizados contra desordens e protestos em momentos de perturbações e de crise social. Os governos, especialmente os que precisavam se preocupar com a opinião pública e com seus eleitores, costumavam ser cuidadosos ao confrontar as tropas com o risco de atirar em seus compatriotas: as conseqüências políticas dos tiros, que soldados pudessem disparar contra civis podiam ser muito negativas, e as de sua recusa a fazê-lo podiam ser ainda piores, como ficou patente em Petrogrado, em 1917. Entretanto, as tropas eram mobilizadas com bastante freqüência, e o número de vítimas nacionais da repressão militar não foi, de forma alguma, irrelevante nesse período, mesmo nos Estados da Europa central e ocidental, onde não se supunha a iminência da revolução, como a Bélgica e a Holanda. Em países como a Itália tais intervenções podiam ser, de fato, muito substanciais.

Para as tropas, a repressão interna era uma atividade inofensiva, mas as guerras eventuais, especialmente nas colônias, eram mais perigosas. O risco era reconhecidamente mais médico que militar. Dos 274 mil militares americanos mobilizados para a guerra hispano-americana de 1898, houve apenas 379 mortos e 1.600 feridos em combate, porém mais de cinco mil morreram de doenças tropicais. Não admire que os governos apoiassem com tanto entusiasmo as pesquisas em medicina, que no período que nos ocupa conseguiram algum controle sobre a febre amarela, a malária e outros flagelos dos territórios ainda conhecidos como “a tumba do homem branco”. A França perdeu uma média de oito oficiais por ano em operações coloniais, entre 1871 e 1908, incluídas as cifras relativas à única zona onde houve perdas sérias, Tonkin, onde caiu quase a metade dos 300 oficiais mortos nesses
37 anos. Não é nosso intuito subestimar a seriedade dessas campanhas, sobretudo sabendo-se que as perdas entre as vítimas eram desproporcionalmente pesadas. Mesmo para os países agressores, essas guerras eram tudo, menos viagens de lazer. A Grã-Bretanha enviou 450 mil homens à África do Sul em 1899-1902, voltando com um saldo de 29 mil mortos em combate ou como conseqüência de ferimentos e 16 mil de doença, o que representou um ônus de 220 milhões de libras esterlinas. Tais custos eram importantes. Contudo, o trabalho do soldado nos países ocidentais era, de longe, consideravelmente menos perigoso que o de certos grupos de trabalhadores civis, como os dos transportes (especialmente por mar) e das minas. Nos três últimos anos das longas décadas de paz, morriam por ano  1.430 mineiros de carvão britânicos, e 165 mil (ou mais de 10% da força de trabalho) sofriam ferimentos. E a taxa de acidentes nas minas de carvão britânicas, embora mais elevada que a belga ou a austríaca, era algo mais baixa que a francesa, cerca de 30% menor que a alemã e não mais de um terço do que a dos EUA.

Os que corriam o maior risco de vida e de integridade física não usavam farda. Assim, se deixarmos de lado a guerra britânica na África do Sul, a vida do soldado e do marinheiro de uma grande nação era bastante pacífica, embora não fosse o caso nos exércitos da Rússia czarista, envolvidos em sérias guerras contra os turcos nos anos 1870 e em outra, desastrosa, contra os japoneses em 1904-1905; nem no exército japonês, que lutou vitoriosamente tanto contra a China como contra a Rússia. Essa situação ainda pode ser identificada nas memórias e aventuras inteiramente
não-bélicas daquele imortal ex-membro do famoso 91.° Regimento do exército imperial e real austríaco, o bom soldado Schweik (inventado por seu autor em 1911). Os quartéis-generais, naturalmente, se prepararam para a guerra, como era seu dever. Como de costume, a maioria deles se preparou para uma versão melhorada da última guerra importante de que os comandantes se lembravam ou que haviam vivido.

Os britânicos, como era natural no caso da maior nação naval, se prepararam para uma participação apenas modesta na guerra terrestre, embora fosse ficando cada vez mais evidente para os generais, que faziam os preparativos para a cooperação com os aliados franceses, nos anos que precederam 1914, que se exigiria muito mais deles. Mas, de maneira geral, foram os civis, e não esses homens, que previram as terríveis transformações da guerra, graças aos avanços da tecnologia militar, que os generais e mesmo alguns almirantes mais abertos à questão tecnológica  demoraram a entender.

Friedrich Engels, velho amante de assuntos militares, chamou muitas vezes à atenção sobre suas limitações, mas foi um financista judeu, Ivan Bloch, que em 1898 publicou em São Petersburgo os seis  volumes de seu Technical, Economic and Political Aspects of the Coming War, um trabalho profético que predizia o empate militar da guerra de trincheiras, o que levaria a um conflito prolongado cujos custos econômicos e humanos intoleráveis exauririam os beligerantes ou os fariam mergulhar na revolução social. O livro foi rapidamente traduzido para numerosos idiomas, sem qualquer conseqüência no planejamento militar.

Enquanto apenas alguns observadores civis compreendiam o caráter catastrófico da futura guerra, governos que não o entendiam se lançaram entusiasticamente à corrida para se equipar com os armamentos cuja nova tecnologia o propiciariam. A tecnologia da morte, já em processo de industrialização em meados do século, avançou notavelmente nos anos 1880, não apenas devido a uma verdadeira revolução na rapidez e no poder de fogo das armas pequenas e da artilharia, mas também através da transformação dos navios de guerra por meio de motores-turbina, de uma blindagem protetora mais eficaz e da capacidade de carregar muito mais armas. A propósito, até a tecnologia da morte civil foi transformada pela invenção da “cadeira elétrica” (1890), embora os algozes de fora dos
EUA tenham  permanecido fiéis a amigos e comprovados métodos, como o enforcamento e a decapitação.

Uma conseqüência óbvia foi que os preparativos para a guerra se tornaram muito mais caros, especialmente porque os Estados competiam uns com os outros para manter a primeira posição ou ao menos para não cair para a última. Essa corrida armamentista começou de maneira modesta no final da década de 1880 e se acelerou no novo século, em particular nos últimos anos antes da guerra. Os gastos militares britânicos permaneceram estáveis nos anos 1870 e 1880, tanto em termos de porcentagem do orçamento total. E o crescimento mais espetacular foi o da marinha, o que não é surpreendente, pois se tratava da ala de alta tecnologia de guerra, correspondente aos mísseis nos gastos modernos em armamentos. Em 1885, a marinha custara ao Estado 11 milhões de libras, e em torno da mesma ordem de grandeza, em 1860. Em 1913-1914 custou mais de quatro vezes esse montante. No mesmo período, os gastos navais alemães aumentavam de modo ainda mais acentuado, de 90 milhões de marcos por ano, em meados da década de 1890, a quase 400 milhões.

Uma conseqüência dos gastos tão elevados foi a necessidade complementar de impostos mais altos, ou de empréstimos inflacionários, ou de ambos. Mas uma conseqüência igualmente óbvia, embora muitas vezes deixada de  lado, foi que eles cada vez mais fizeram da morte em prol de várias pátrias um subproduto da  indústria em grande  escala. Alfred Nobel e Andrew Carnegie, dois capitalistas que sabiam o que os transformara em milionários dos ramos de explosivos e aço, respectivamente, tentaram compensar a situação destinando uma parte de sua riqueza à causa da paz. Nesse sentido foram atípicos. A simbiose entre guerra e produção da guerra transformou  inevitavelmente as relações entre  governo e indústria, pois, como observou Friedrich Engels em 1892, “como a guerra se tornou um setor da grande indústria… “Ia grande industrie… se tornou uma necessidade política”. E, reciprocamente, o  Estado se tornou essencial para certos setores da indústria, pois quem, senão o governo, constitui a clientela dos armamentos? Os bens que essa indústria produzia eram determinados não pelo mercado, mas pela interminável concorrência dos governos, que os fazia procurar garantir para si um fornecimento  satisfatório das armas mais avançadas e, portanto, mais eficientes. E mais, o que os governos precisavam não era tanto da produção real de armas, mas sim da capacidade de produzí-las numa escala compatível com uma época de guerra, se fosse o caso; isso quer dizer que eles tinham que zelar para que suas indústrias mantivessem uma capacidade de produção altamente excedente para tempos de paz.

Assim, de uma forma ou de outra, os Estados eram obrigados a garantir a existência de poderosas indústrias  nacionais de armamentos, a arcar com boa parte do custo de seu desenvolvimento técnico e a fazer com que permanecessem rentáveis. Em outras palavras, tinham que proteger essas indústrias  contra os vendavais que ameaçavam os navios da empresa capitalista, que singravam os mares imprevisíveis do mercado livre e da livre concorrência. É claro que eles mesmos também podiam  e as Relações Internacionais envolver na fabricação de armas, como o fizeram por muito tempo. Mas nesse exato momento os Estados, ou ao menos o Estado liberal britânico, preferiram chegar a um acordo com a empresa privada. Nos anos 1880, os produtores privados de armamento assinaram mais de um terço de seus contratos de fornecimento com as forças armadas; nos anos de 1890, 46%; nos anos 1900, 60%: o governo, incidentalmente, estava disposto a garantir-lhes dois terços. ” Não admire que as empresas de armamento estivessem entre os gigantes da indústria, ou passassem a estar: a guerra e a concentração capitalista caminhavam juntas. Krupp, na Alemanha, o rei dos canhões, empregava 16.000 pessoas em 1873, 24.000 em torno de 1890, 45.000 em torno de 1900 e quase 70.000 em 1912, quando 50.000 das famosas armas Krupp saíram da linha de produção. Na fábrica britânica Armstrong, Whitworth empregava 12.000 homens em suas instalações principais em Newcastle, que passaram a 20.000 ou mais de 40% de todos os metalúrgicos do Tyneside em 1914, sem contar os das 1.500 firmas menores que viviam de subempreitadas da Armstrong. Também eram muito rentáveis.

 

Como o moderno “complexo industrial-militar” dos EUA, essas concentrações industriais gigantescas não teriam sido nada sem a corrida armamentista dos governos. Assim sendo, é tentador responsabilizar tais “mercadores da morte” (a expressão se popularizou entre os pacifistas) pela “guerra de aço e ouro”, como a denominou um jornalista britânico. Não era lógico que a indústria de armas incentivasse a aceleração da corrida armamentista, inventando, se necessário, inferioridades nacionais ou “janelas de vulnerabilidade”, que podiam ser removidas através de lucrativos contratos? Uma firma alemã, especializada na fabricação de metralhadoras, conseguiu inserir uma nota no jornal Le Figaro para que o governo francês planejasse duplicar seu número de metralhadoras. Como conseqüência, o governo alemão fez uma encomenda de 40 milhões de marcos de tais armas em 1908-1910, aumentando assim os dividendos da firma de 20 a 32%, Uma firma britânica, argumentando que seu governo subestimara de modo grave o programa de rearmamento da marinha alemã, beneficiou-se com 250.000 libras esterlinas por cada encouraçado  encomendado pelo governo britânico, o que duplicou sua  construção naval. Pessoas elegantes e pouco visíveis,  como o grego Basil Zaharoff, atuando em nome da Vickers (e que mais tarde recebeu o título de cavaleiro pelos  serviços prestados aos aliados durante a Primeira Guerra Mundial), tomaram as providências necessárias para que a indústria de armamentos das grandes nações vendesse seus produtos menos vitais ou obsoletos a Estados do Oriente Próximo e da América Latina, que já estavam em condições de comprar tais utensílios. Em suma, o comércio internacional moderno da morte já estava bem encaminhado.

Contudo, a guerra mundial não pode ser explicada como uma conspiração de fabricantes de armas, mesmo fazendo os técnicos, com certeza, o máximo para convencer generais e almirantes, mais familiarizados com paradas militares do que com a ciência, de que tudo estaria perdido se eles não encomendassem o último tipo de arma ou navio de guerra. Não há dúvida de que a acumulação de armamentos, que atingiu proporções temíveis nos últimos cinco anos anteriores a 1914, tornou a situação mais explosiva. Não há dúvida de que havia chegado o momento, ao menos no verão europeu de 1914, em que a máquina inflexível que mobilizava as forças da morte não poderia mais ser  estocada.

 

Porém, a Europa não foi à guerra devido à corrida armamentista como tal, mas devido à situação internacional que lançou as nações nessa competição. A discussão sobre a gênese da Primeira Guerra Mundial tem sido ininterrupta desde agosto de 1914. Provavelmente correu mais tinta, mais árvores foram sacrificadas para fazer papel, mais
máquinas de escrever trabalharam para responder a essa pergunta do que a qualquer outra na história, inclusive, talvez o debate em torno da Revolução Francesa. A medida que as gerações se sucediam, que a política nacional e internacional ia sendo transformada, o debate foi ressurgindo. Mal a Europa mergulhara na catástrofe, os beligerantes começaram a se perguntar por que a diplomacia internacional não conseguira evitá-la e a atribuir-se mutuamente a responsabilidade. Aqueles que se opunham à guerra iniciaram imediatamente suas análises. A Revolução Russa de 1917, que publicou os documentos secretos do czarismo, acusou o imperialismo como um todo. Os aliados vitoriosos criaram a tese da “culpa de guerra, exclusivamente alemã”, pedra angular do tratado de paz de Versalhes de 1919 e geradora de um imenso fluxo de textos, documentários e de propaganda histórica a favor e,  sobretudo,  contra essa tese. Naturalmente, a Segunda Guerra Mundial fez esse debate ser retomado, e ele  foi revigorado alguns anos depois, quando tornou a surgir uma historiografia de esquerda na República Federal Alemã, que, ansiosa para romper com as ortodoxias conservadoras e patrióticas nazi-alemã, elaborou sua própria versão da responsabilidade da Alemanha. As discussões sobre os perigos para a paz mundial, que, por motivos óbvios, nunca cessaram após Hiroshima e Nagasaki, procuram inevitavelmente possíveis paralelos entre as origens das guerras mundiais passadas e as perspectivas internacionais atuais. Enquanto os propagandistas  preferiram a comparação com os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial (“Munique”), os historiadores  encontraram cada vez mais similitudes entre os problemas dos anos 1980 e 1910. Assim, as origens da Primeira Guerra Mundial eram, uma vez mais, uma questão de importância candente e imediata. Nessas circunstâncias, qualquer historiador que  tente explicar, como deve fazer um historiador do nosso período, por que ocorreu a Primeira Guerra Mundial, mergulha em águas profundas e turbulentas.
Contudo, podemos ao menos simplificar essa tarefa eliminando perguntas a que o historiador não tem que responder. A mais importante delas é aquela da “culpa de guerra”, que se refere a um julgamento moral e político, mas tem a ver apenas perifericamente com os historiadores. Se estivermos interessados em saber por que um século de paz européia cedeu o lugar a uma época de guerras mundiais, perguntar de quem foi a culpa é tão fútil quanto  perguntar se Guilherme, o Conquistador, tinha um bom motivo legal para invadir a Inglaterra, a razão pela qual os guerreiros da Escandinávia partiram para conquistar numerosas áreas da Europa nos séculos X e XI.

É claro que nas guerras as responsabilidades muitas vezes podem ser identificadas. Poucos negariam que, nos anos 1930, a atitude da Alemanha era essencialmente agressiva e expansionista e que a de seus adversários era  essencialmente defensiva. Ninguém negaria que as guerras de expansão imperial em nossa época, como a Guerra Hispano-Americana de 1898 e a Sul-Africana de 1899-1902, foram provocadas pelos EUA e pela Grã-Bretanha e não por suas vítimas. Seja como for, todo mundo sabe que os governos de todos os Estados do século XIX, por mais  preocupados que estivessem com suas relações públicas, consideravam a guerra uma contingência normal da política internacional e eram honestos o bastante para admitir que bem podiam tomar a iniciativa militar. Os Ministérios da Guerra ainda não se chamavam, eufemisticamente, Ministérios da Defesa.
Contudo, é indubitável que nenhum governo de qualquer uma das grandes potências de antes de 1914 queria uma guerra européia generalizada, seja mesmo ao contrário dos anos 1850 e 1860 um conflito militar restrito com outra grande nação européia. Isto é conclusivamente demonstrado pelo fato de que nos lugares onde as ambições políticas das grandes nações entravam em conflito direto, ou seja, nas zonas ultramarinas de conquistas e partilhas coloniais, seus numerosos confrontos eram sempre resolvidos por algum acordo pacífico. Até as mais graves crises, as de Marrocos em 1906 e 1911, foram contornadas. As vésperas de 1914, os conflitos coloniais não pareciam mais colocar problemas insolúveis às várias nações concorrentes; fato que tem sido usado, de modo bastante ilegítimo, como argumento para afirmar que as rivalidades imperialistas foram irrelevantes na deflagração da Primeira Guerra Mundial.
É evidente que as nações estavam longe de ser pacíficas, quanto menos pacifistas. Elas se prepararam para uma guerra européia – às vezes erroneamente – mesmo seus ministros das Relações Exteriores fazendo o máximo para evitar o que eles unanimemente consideravam uma catástrofe. Nos  anos 1900, nenhum governo tinha objetivos que, como os de Hitler em 1930, só pudessem ser atingidos por meio da guerra ou da ameaça constante de guerra. Até a  Alemanha, cujo comandante do Estado-Maior defendeu em vão um ataque antecipado em 1904-1905 contra a França, enquanto sua aliada, a Rússia, estava imobilizada pela guerra e, mais tarde, pela derrota e pela revolução, só usou a oportunidade oferecida pela fraqueza e isolamento temporário da França para fazer avançar suas reivindicações imperialistas sobre Marrocos, um problema administrável em torno do qual ninguém pretendia começar, nem começou, uma guerra importante. Nenhum governo de potências importantes, nem os mais ambiciosos, frívolos e irresponsáveis, queriam uma guerra de grandes proporções. O velho imperador Francisco José, ao anunciar a deflagração dessa guerra a seus condenados súditos em 1914, estava sendo totalmente sincero ao dizer “Eu não quis que isso acontecesse” (“Ich hab es nicht gewollt”), mesmo tendo sido seu governo que, de fato, a provocou.
O máximo que se pode afirmar é que, a partir de um certo ponto do lento escorregar para o abismo, a guerra pareceu  tão inevitável que alguns governos decidiram que a melhor coisa a fazer seria escolher o momento mais propício, ou menos desfavorável, para iniciar as hostilidades. Afirma-se que a Alemanha procurou esse momento a partir de 1912, mas dificilmente poderia ter sido antes. Sem dúvida, durante a crise final de 1914, precipitada pelo irrelevante assassinato de um arquiduque austríaco por um estudante terrorista, numa cidade de província dos confins dos Bálcãs, a Áustria sabia que corria o risco de uma guerra mundial ao provocar a Sérvia; e a Alemanha, ao decidir dar total apoio à sua aliada, transformou o risco quase numa certeza. “A balança está pendendo contra nós”, disse o ministro da Guerra austríaco, em 7 de julho. Não era melhor guerrear antes que pendesse mais? A Alemanha seguiu a mesma linha de raciocínio. Apenas nessa linha restrita a pergunta sobre “culpa de guerra” tem algum sentido. Mas, como os acontecimentos mostraram no verão de 1914, ao contrário de crises anteriores, a paz fora anulada por todas as nações até pelos britânicos, que os alemães tinham esperanças parciais de que ficassem neutros, aumentando  assim suas chances de derrotar tanto a França como a Rússia. Nenhuma das grandes nações teria dado o golpe de misericórdia na paz, nem mesmo em 1914, se não estivesse convencida de que seus ferimentos já eram mortais.

Portanto, descobrir as origens da Primeira Guerra Mundial não equivale a descobrir “o agressor”. Ele repousa na natureza de uma situação internacional em processo de deterioração progressiva, que escapava cada vez mais ao controle dos governos. Gradualmente a Europa foi se  dividindo em dois blocos opostos de grandes nações. Tais blocos, fora de uma guerra, eram novos em si mesmos e derivavam, essencialmente, do surgimento no cenário europeu de um Império Alemão  Unificado, constituído entre 1864 e 1871 por meio da diplomacia e da guerra, às custas dos outros, e procurava se proteger contra seu principal perdedor, a França, através de alianças em tempos de paz, que geraram contra-alianças. As alianças, em si, embora implicassem a possibilidade da guerra, não a tornavam nem certa nem mesmo provável. Assim, o chanceler alemão Bismarck, que foi o campeão do jogo de xadrez  diplomático multilateral por quase trinta anos, após 1871 dedicou-se com exclusividade e sucesso à manutenção da paz entre as nações. Um sistema de blocos de nações só se tornou um perigo  para a paz quando as alianças opostas se consolidaram como permanentes, mas especialmente quando as disputas entre eles se transformaram em confrontos inadministráveis. Isto aconteceria no novo século. A pergunta crucial é: por que?
Contudo, não havia maiores diferenças entre as tensões internacionais que levaram à Primeira Guerra Mundial e as que são subjacentes ao perigo de uma terceira, que as pessoas, nos anos 1980, ainda esperam evitar. Nunca houve, desde 1945, a mínima dúvida quanto aos principais adversários numa terceira guerra mundial: os EUA e a URSS. Mas, em 1880, as coalizões de 1914 não eram previstas. Naturalmente, alguns aliados e inimigos potenciais eram fáceis de discernir. A Alemanha e a França estariam em lados opostos, quanto mais não fosse porque a Alemanha anexara grandes porções da França (Alsácia-Lorena) após sua vitória em 1871. Também não era difícil prever a permanência da aliança entre Alemanha e Áustria-Hungria, forjada por Bismarck após 1866, pois o equilíbrio interno do novo Império Alemão tornou essencial manter vivo o multinacional Império Habsburgo.

Sua desintegração em fragmentos nacionais não apenas levaria, como Bismarck bem sabia, à ruína do  sistema de Estados da Europa Central e Oriental, como destruiria também a base de uma “pequena Alemanha” dominada pela Prússia. De fato, ambas as coisas aconteceram após a Primeira Guerra Mundial. O traço diplomático mais permanente do período 1871-1914 foi a “Tríplice Aliança” de 1882, que na verdade era uma aliança austro-alemã, já que o terceiro participante, a Itália, logo se afastaria para finalmente se unir ao campo antialemão em 1915.
Uma vez mais era óbvio que a Áustria, envolvida nos turbulentos assuntos dos Bálcãs devido a seus problemas multinacionais, e, mais profundamente que nunca, depois de ter conquistado a Bósnia-Herzegovina em 1878, se achava em oposição à Rússia naquela região. Embora Bismarck tenha feito o máximo para manter relações estreitas com a Rússia, era previsível que cedo ou tarde a  Alemanha seria forçada a escolher entre Viena e São Petersburgo e que só podia optar por Viena.
Ademais, uma vez que a Alemanha tinha desistido da opção russa, como aconteceu no final da década de 1880, era lógico que a Rússia e a França se unissem, como de fato o fizeram, em 1891. Friedrich Engels cogitara  dessa aliança  ainda nos anos 1880, naturalmente dirigida contra a Alemanha. Assim sendo, no início da década de 1890, dois grupos de nações se enfrentavam na Europa inteira. Embora as relações internacionais tenham ficado mais tensas, não era inevitável uma guerra européia generalizada, quanto mais não seja porque os problemas que separavam a França da Alemanha (ou seja a Alsácia-Lorena) não tinham interesse para a Áustria, e os que representavam um risco de conflito entre a Áustria e a Rússia (o nível de influência da Rússia nos Bálcãs) eram insignificantes para a Alemanha. Os Bálcãs, observou Bismarck, não valiam os ossos de um único granadeiro pomeraniano. A França não tinha reais brigas com a Áustria, nem a Rússia com a Alemanha. Por isso, os problemas que separavam a França da Alemanha, embora permanentes, dificilmente seriam considerados merecedores de uma guerra pela maioria dos franceses, e os que separavam a Áustria da Rússia, embora como 1914 mostrou potencialmente mais graves, só se
colocavam intermitentemente. Três problemas transformaram o sistema de aliança numa bomba-relógio: a situação do fluxo internacional, desestabilizado por novos problemas e ambições mútuas entre as nações, a lógica do planejamento militar conjunto que congelou os blocos que se confrontavam, tornando-os permanentes, e a integração de uma quinta grande nação, a Grã-Bretanha, a um dos blocos (ninguém se preocupou muito com as tergiversações da Itália, que só era uma “grande nação” por cortesia internacional). Entre 1903 e 1907, para surpresa geral, incluindo a sua própria, a Grã-Bretanha se uniu ao lado antialemão. A origem da Primeira Guerra Mundial pode ser melhor entendida acompanhando-se o surgimento desse antagonismo anglo-germânico.
A Tríplice Entente foi surpreendente tanto para os inimigos como para os aliados britânicos. No passado, a Grã-Bretanha não tinha tradição nem qualquer motivo permanente de atrito com a Prússia e o mesmo parecia ser  verdade em relação à super-Prússia conhecida agora como Império Alemão. Por  outro lado, a Grã-Bretanha fora antagonista quase automática da França em quase todas as guerras européias desde 1688. Mesmo isso não sendo mais verdade, quanto mais não fosse porque a França deixara de ser capaz de dominar o continente, o atrito entre os dois países era visivelmente crescente, ao menos porque entre ambas competiam pelo mesmo território e influência como nação imperialista. Assim, as relações eram pouco amistosas no que tange ao Egito, cujo controle era cobiçado por ambas, mas foi tomado pelos britânicos (junto com o Canal de Suez, financiado pela França). Durante a crise de Fashoda, de 1898, pareceu que haveria derramamento de sangue, pois as tropas coloniais rivais britânicas e francesas se enfrentaram no interior do Sudão. Na divisão da África, os ganhos de um eram, no mais das vezes, às custas do outro. No que tange à Rússia, os impérios britânico e czarista haviam sido antagonistas permanentes na zona dos Bálcãs e do Mediterrâneo, da assim chamada “Questão Oriental” e nas áreas, mal definidas, porém amargamente disputadas, da Ásia Central e Ocidental que ficavam entre a Índia e as terras do czar: Afeganistão, Irã e as regiões com saída para o Golfo Pérsico.

A perspectiva de ver russos em Constantinopla e, portanto, no Mediterrâneo e de uma expansão russa  em direção à Índia era um pesadelo constante para os chanceleres britânicos. Os dois países haviam inclusive se enfrentado na única das guerras européias do século XVIII de que a Grã-Bretanha participou (a Guerra da Criméia) e nos anos 1870 uma guerra russo-britânica era muito provável. Dado o modelo consagrado de diplomacia britânica, uma guerra contra a Alemanha era uma possibilidade tão remota que devia ser ignorada. Uma aliança permanente com qualquer nação continental parecia incompatível com a manutenção do equilíbrio de poder, que era o principal objetivo da política externa britânica. Uma aliança com a França seria considerada improvável, uma com a Rússia quase impensável. Contudo, o implausível se tornou realidade: a Grã-Bretanha se vinculou de forma permanente à França e à Rússia contra a Alemanha, resolvendo todas as diferenças com a Rússia, a ponto de concordar com a ocupação, por esta, de Constantinopla oferta que desapareceu do horizonte com a Revolução Russa de 1917. Como e por que se produziu essa surpreendente transformação? Aconteceu porque ambos os jogadores, bem como as regras do jogo tradicional da diplomacia internacional, mudaram. Em primeiro lugar, o tabuleiro em que era jogado ficou muito major. A rivalidade entre as potências, confinada antes em grande medida à Europa e áreas adjacentes (com exceção dos britânicos), era agora global e imperial fora a maior parte das Américas, destinada  com exclusividade à expansão imperial dos EUA pela Doutrina Monroe de Washington. Agora era igualmente  provável que as disputas internacionais que tinham que ser resolvidas, para não degenerarem em guerras,  ocorressem na África Ocidental e no Congo nos anos 1880, na China no final da década de 1890, no Magreb (1906, 1911) e no corpo em decomposição do Império Otomano, muito mais provavelmente que em torno de qualquer problema na Europa não-balcânica. Ademais, agora havia mais dois jogadores: os EUA que, embora ainda evitando envolvimento com problemas europeus, desenvolviam um expansionismo ativo no Pacífico e no Japão. Na verdade, a aliança britânica com o Japão (1902) foi o primeiro passo rumo à Tríplice Aliança, pois a existência daquela nova potência, que em breve mostraria que podia inclusive derrotar o Império czarista na guerra, reduziu a ameaça que a Rússia representava para a Grã-Bretanha, fortalecendo assim a posição britânica. Tornou, portanto, possível o esvaziamento de antigas disputas russo-britânicas.
A globalização do jogo de poder internacional transformou automaticamente a situação do país, que fora até então a única das grandes potências com objetivos políticos realmente mundiais. Não é exagero dizer que durante a maior parte do século XIX a função da Europa nos cálculos diplomáticos britânicos era ficar quieta para que a Grã- Bretanha pudesse dar continuidade às suas atividades, principalmente econômicas, no resto do planeta. Esta era a essência da combinação característica de um equilíbrio europeu de poder com a Pax Britannica, garantido pela única marinha de dimensões mundiais, que controlava todos os oceanos e orlas marítimas do globo. Em meados do século XIX, todas as outras marinhas do mundo, juntas, mal ultrapassavam o tamanho da marinha britânica sozinha. No final do século já não era assim.
Em segundo lugar, com o surgimento de uma economia industrial capitalista mundial, o jogo internacional se  desenrolava em torno de apostas bastante diferentes. Isso não significa que, adaptando a famosa frase de  Clausewitz, a guerra agora fosse apenas a continuação da concorrência econômica por outros meios. Esta opinião tentou os deterministas históricos à época, quanto mais não fosse porque observavam muitos exemplos de expansão econômica por meio de metralhadoras e canhoneiras. Entretanto, era uma simplificação grosseira. Mesmo tendo o desenvolvimento capitalista e o imperialismo responsabilidade na derrapagem descontrolada do mundo em direção a um conflito mundial, é impossível argumentar que muitos dos capitalistas fossem provocadores conscientes da guerra. Qualquer estudo imparcial das publicações do setor de negócios, da correspondência particular e comercial dos homens de negócios, de suas declarações públicas enquanto porta-vozes dos bancos, do comércio e da indústria mostra, de modo bastante conclusivo, que a maioria dos homens de negócios achava a paz internacional vantajosa para eles. De fato, a guerra em si era aceitável somente na medida em que não interferisse nos “negócios como de costume”, e a principal objeção do jovem economista Keynes (que ainda não era um reformador radical de sua área) era que a guerra não apenas matava seus amigos, mas também inviabilizava uma política econômica baseada nos “negócios como de costume”. Havia, naturalmente, expansionistas econômicos belicosos, mas o jornalista liberal Norman Angell exprimia quase com certeza o consenso do mundo dos negócios: a crença de que a guerra beneficiava o capital era “A Grande Ilusão”, título de seu livro de 1912.
De fato, por que os capitalistas mesmo os industriais, com a possível exceção dos fabricantes de armas desejariam  perturbar a paz internacional, quadro essencial de sua prosperidade e expansão, se o tecido da liberdade  internacional para negociar e o das transações financeiras dependiam dela? Evidentemente, os que foram bem-sucedidos na concorrência internacional não tinham motivos de queixa. Os perdedores pediriam, naturalmente, proteção econômica a seus governos, o que é, contudo, muito diferente de pedir guerra. Ademais, o maior dos perdedores potenciais, a Grã-Bretanha, resistiu até contra esses pedidos, e seus interesses econômicos permaneceram, em sua esmagadora maioria, vinculados à paz, apesar do constante temor da concorrência alemã, ruidosamente expressa nos anos 1890, e da penetração já efetiva do capital alemão e americano no mercado interno britânico. No que tange às relações anglo-americanas, podemos inclusive ir mais longe. Se apenas a  concorrência econômica bastasse para uma guerra, a rivalidade anglo-americana deveria, logicamente, ter preparado o terreno para um conflito militar como alguns marxistas do entre-guerra ainda pensavam que fosse ocorrer. Contudo, foi precisamente nos anos 1900 que o Estado-Maior imperial britânico abandonou até os mais remotos planos de emergência para uma guerra anglo-americana. Daí em diante, essa possibilidade ficou totalmente excluída.

O equilíbrio se rompe: a Grande Guerra
No entanto, o desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo, inevitavelmente, em direção a uma rivalidade entre os Estados, à expansão imperialista, ao conflito e à guerra. Após 1870, como os historiadores mostraram, “a passagem do monopólio à concorrência talvez tenha sido o fator isolado mais importante na preparação da mentalidade propícia ao empreendimento industrial e comercial europeu. Crescimento econômico também era luta econômica, luta que servia para separar os fortes dos fracos, para desencorajar alguns e endurecer outros, para favorecer as nações novas e famintas às custas das antigas. O otimismo em relação a um futuro de progresso indefinido cedeu lugar à incerteza e a um sentimento de agonia, no sentido clássico do termo. Tudo isso, por sua vez, reforçando e sendo  reforçado pelo acirramento das rivalidades políticas , as duas formas de concorrência que surgiam”.

A economia mundial deixara totalmente de ser, como fora em meados do século XIX, um sistema solar girando em torno de uma estrela única, a Grã-Bretanha. Embora as transações financeiras e comerciais do planeta ainda, na verdade cada vez mais, passassem por Londres, a Grã-Bretanha já não era, evidentemente, a “oficina do mundo”, nem seu principal mercado importador. Ao contrário, seu declínio relativo era patente. Um certo número de economias industriais nacionais agora se enfrentavam mutuamente. Sob tais circunstâncias, a concorrência econômica passou a estar intimamente entrelaçada com as ações políticas, ou mesmo militares, do Estado. O ressurgimento do protecionismo durante a Grande Depressão foi a primeira conseqüência dessa fusão. Do ponto de vista do capital, o apoio político passaria a ser essencial para manter a concorrência estrangeira à distância, e talvez também essencial em regiões do mundo onde as empresas de economias industriais nacionais competiam umas
com as outras. Do ponto de vista dos Estados a economia passou a ser desde então tanto a base mesma do poder internacional como seu critério. Agora era impossível conceber uma grande nação”, que não fosse ao mesmo tempo uma “grande economia”, transformação ilustrada pelo ascenso dos EUA e pelo enfraquecimento relativo do Império Czarista.
Inversamente, as transformações que ocorreram no poder econômico, que mudaram automaticamente o equilíbrio entre força política e militar, não acarretariam uma redistribuição de papéis no cenário internacional? Esta era uma opinião francamente popular na Alemanha, cujo  assombroso crescimento industrial lhe conferiu um peso internacional incomparavelmente maior que o que tivera a Prússia. Não foi por acaso que entre os alemães nacionalistas de 1890, o velho cântico patriótico “O sentinela do Reno”, dirigido exclusivamente contra os franceses, perdeu rapidamente terreno frente às ambições globais do “Deutschland über Alles”, que se tornou, de fato, o hino nacional alemão, embora ainda não oficialmente.
O que tornou essa identificação entre poder econômico e político-militar tão perigosa foram não apenas as rivalidades nacionais pelos mercados mundiais e recursos materiais e pelo controle de regiões, como no Oriente Próximo e Médio, onde os interesses econômicos e estratégicos tantas vezes se  sobrepunham. Bem antes de 1914, a petro-diplomacia já era um fator crucial no Oriente Médio, sendo vitoriosas a Grã-Bretanha e a França, as empresas de petróleo ocidentais (mas ainda não americanas) e um intermediário armênio, Calouste Gulbenkian, que garantiu 5% para si próprio. Inversamente, a penetração econômica e estratégica alemã no Império Otomano já preocupava os britânicos e ajudou a situar a Turquia do lado da Alemanha durante a guerra. Mas a novidade da situação residia em que,  dada à fusão entre economia e política, nem a divisão pacífica das áreas disputadas em “zonas de influência” podia manter a rivalidade internacional sob controle. A única coisa que poderia controlá-la como sabia Bismarck, que a administrou com incomparável habilidade entre 1871 e 1889 ,era a limitação deliberada de objetivos. Se os Estados pudessem definir seus objetivos diplomáticos com precisão, uma determinada mudança nas fronteiras, um casamento dinástico, uma “compensação” definível pelos avanços de outros Estados, tanto o cálculo como o acordo seriam possíveis. Mas nenhuma das duas excluía, como o próprio Bismarck comprovara entre 1862 e 1871, o conflito militar controlado.
Mas o traço característico da acumulação capitalista era justamente não ter limite. As “fronteiras naturais” da Standard Oil, do Deutsche Bank, da De Beers Diamond Corporation estavam situadas nos confins do universo, ou antes, nos limites de sua capacidade de expansão. Foi este aspecto dos novos padrões da política mundial que desestabilizou as estruturas da política mundial tradicional. Enquanto o equilíbrio e a estabilidade permaneciam como a condição fundamental das nações européias em suas relações recíprocas, em outros lugares nem as mais pacíficas hesitavam em recorrer à guerra contra os fracos. Tinham sem dúvida, como vimos, o cuidado de manter seus conflitos coloniais sob controle. Estes nunca pareceram constituir causus belli para uma guerra de grandes proporções, mas com certeza precipitaram a formação de blocos internacionais e finalmente beligerantes: o que se tornou o bloco anglo-franco-russo começou com o “entendimento cordial” anglo-francês (Entente Cordiale) de 1904, essencialmente uma negociação imperialista através da qual os franceses desistiram de reivindicar o Egito, e, em troca, a Grã-Bretanha apoiaria suas reivindicações relativas ao Marrocos, uma vítima, na qual a Alemanha também estava de olho. Entretanto, todas as nações, sem exceção, estavam com ânimo expansionista e conquistador. Até a Grã-Bretanha, cuja postura era fundamentalmente defensiva, dado que seu problema era como proteger seu domínio global, até então incontestado, contra os novos intrusos atacou as repúblicas sul-africanas; ela também não hesitou em pensar em dividir as colônias de outro Estado europeu, Portugal, com a Alemanha. No oceano do planeta, todos os Estados eram tubarões e todos os estadistas sabiam disso.

Mas o que tornou o mundo um lugar ainda mais perigoso foi a equação tácita de crescimento econômico ilimitado e poder político, que veio a ser aceita inconscientemente. Assim, o imperador alemão pediu, nos anos 1890, “um lugar ao sol” para seu Estado. Bismarck poderia ter reivindicado o mesmo e, de fato, conquistara um lugar muitíssimo mais poderoso no mundo para a nova Alemanha do que a Prússia jamais desfrutara. Contudo, Bismarck podia definir as dimensões de suas ambições, evitando cuidadosamente entrar no terreno das zonas sem controle, ao passo que para Guilherme II a frase se tornou um mero slogan sem conteúdo concreto. Formulava simplesmente um princípio de proporcionalidade: quanto mais poderosa for a economia de um país, maior será sua população, maior o lugar internacional de sua nação-Estado. Assim, não havia limites teóricos ao lugar que ele podia sentir que lhe cabia. Como dizia a frase nacionalista: “Heute Deutschland, morgen die ganze Welt” (Hoje a Alemanha, amanhã o mundo inteiro). Tal dinamismo ilimitado pode ser expresso na retórica política, cultural ou nacionalista-racista: mas o real denominador comum dos três níveis era a necessidade imperiosa de expandir uma economia capitalista maciça, observando suas curvas estatísticas dispararem para cima. Sem isso sua significação seria tão reduzida como, digamos, a dos intelectuais poloneses do século XIX, que acreditavam numa missão messiânica de seu (então não existente) país no mundo.

Em termos práticos, o perigo não era a Alemanha se propor concretamente a tomar o lugar britânico de potência mundial, embora a retórica da agitação nacionalista alemã tenha prontamente batido na tecla antibritânica. O perigo residia antes em que um poder global exigia uma marinha global, e a Alemanha empreendeu (1897), portanto, a construção de uma grande esquadra de guerra, que tinha a vantagem incidental de representar não os velhos estados alemães, mas exclusivamente a nova Alemanha unificada, com um oficialato que representava não os junkers prussianos ou qualquer outra tradição guerreira aristocrática, mas a nova classe média, ou seja, a nova nação. O próprio almirante Tirpitz, paladino da expansão naval, negou ter planejado uma marinha capaz de derrotar a britânica, afirmando que só queria uma força naval ameaçadora o bastante para forçar a Grã-Bretanha a apoiar
as suas rei vindicações globais e, especialmente, coloniais. Além disso, seria possível esperar-se que um país do porte da Alemanha não tivesse uma marinha à altura de sua importância?

Do ponto de vista britânico, a construção de uma esquadra de guerra alemã mais que um mero aumento da tensão para sua marinha já excessivamente comprometida a nível mundial e já superada pela soma das esquadras das nações rivais, antigas e modernas significava o aumento das dificuldades em manter, sequer, seu objetivo mais modesto: o de ser mais forte que as duas outras maiores marinhas combinadas (o “padrão duas potências”). Ao contrário de todas as outras, as bases da esquadra alemã estavam inteiramente no Mar do Norte, de frente para a Inglaterra.

Seu objetivo não podia ser outro senão o conflito com a marinha britânica. Do ponto de vista britânico, a Alemanha era essencialmente um poder continental e, como importantes estudiosos da geopolítica como Sir Halford Mackinder destacaram (1904), as grandes nações desse tipo já têm vantagens substanciais em relação a uma ilha de tamanho médio. Os interesses marítimos alemães legítimos eram visivelmente marginais, ao passo que o Império Britânico dependia profundamente de suas rotas marítimas, e de fato deixara os continentes (exceto a Índia) aos exércitos de Estados cujo elemento era a terra. Mesmo se a esquadra de guerra alemã não fizesse absolutamente nada, inevitavelmente imobilizaria navios britânicos, dificultando, ou até impossibilitando, o controle naval britânico sobre águas consideradas vitais como o Mediterrâneo, o Oceano Indico e a orla do Atlântico.

O que para a Alemanha era um símbolo de status internacional e de ambições mundiais indefinidas, para o Império Britânico era uma questão de vida ou morte. As águas americanas podiam e foram em 1901 deixadas a cargo de um país amigo, os EUA; as águas do Extremo Oriente foram deixadas a cargo dos EUA e do Japão, porque à época ambos eram nações com interesses puramente regionais, que de qualquer maneira não pareciam incompatíveis com os britânicos. A marinha alemã, mesmo como marinha regional, o que não mais pretendia ser, era uma ameaça tanto para as ilhas britânicas, como para a posição mundial do Império Britânico. A Grã- Bretanha defendeu ao máximo a preservação do status quo e a Alemanha sua modificação inevitavelmente, mesmo se não intencionalmente, às custas da Grã-Bretanha. Nessas circunstâncias e dada a rivalidade econômica entre as indústrias dos dois países, não admira que a Grã-Bretanha considerasse a Alemanha o mais provável e perigoso de seus adversários potenciais.

Era lógico que se aproximasse da França e uma vez o perigo russo minimizado pelo Japão da Rússia, ainda mais porque a derrota russa destruíra, pela primeira vez na memória das pessoas ainda vivas, o equilíbrio entre as nações do continente europeu que os chanceleres britânicos tinham dado por certo durante tanto tempo.

Este fato revelou que a Alemanha era a força militar dominante na Europa, de longe, a mais temível. Esses foram os antecedentes da surpreendente Tríplice Entente anglo-franco-russa. A divisão da Europa nos dois blocos hostis levou quase um quarto de século, da formação da Tríplice Aliança (1882) à configuração da Tríplice Entente (1907). Não precisamos acompanhar o período, ou os acontecimentos subseqüentes, através do labirinto de todos os seus detalhes. Estes apenas demonstram que o atrito internacional no período do imperialismo era global e endêmico, que ninguém, ainda menos os britânicos, sabia muito bem em que direção as contracorrentes dos interesses, temores e ambições, suas e de outras nações, os estavam levando, e, embora o sentimento de que estariam levando a Europa rumo a uma guerra importante fosse generalizado, nenhum dos governos sabia muito bem o que fazer a esse respeito. Falharam inúmeras tentativas de romper o sistema de blocos, ou ao menos de mitigá-lo por meio de aproximação entre os blocos: entre Grã-Bretanha e Alemanha, Alemanha e Rússia, Alemanha e França, Rússia e Áustria. Os blocos, fortalecidos por planos inflexíveis de estratégia e mobilização, tornaram-se mais rígidos; o continente foi incontrolavelmente arrastado para a batalha por meio de uma série de crises internacionais que, após 1905, cada vez mais eram solucionadas por “malabarismo político” isto é, pela ameaça da guerra.

A partir de 1905, a desestabilização da situação internacional, como conseqüência da nova vaga de revoluções na periferia das sociedades plenamente “burguesas”, acrescentou material inflamável novo a um mundo que já estava prestes a pegar fogo. Houve a revolução russa de 1905, que deixou o Império Czarista temporariamente incapacitado, encorajando a Alemanha a insistir em suas reivindicações no Marrocos, intimidando a França. Berlim foi forçada a recuar na conferência de Algeciras (janeiro de 1906) devido ao apoio britânico à França, em parte porque uma guerra de grandes proporções por causa de um problema puramente colonial era pouco atraente politicamente, em parte porque a marinha alemã ainda se sentia excessivamente fraca para enfrentar uma guerra contra a marinha britânica. Dois anos depois, a Revolução Turca destruiu os acordos, cuidadosamente construídos, que visavam ao equilíbrio internacional no sempre explosivo Oriente Próximo. A Áustria aproveitou a oportunidade para anexar formalmente a Bósnia-Herzegovina (que anteriormente apenas administrava), precipitando assim uma crise com a Rússia, resolvida apenas com a ameaça de um apoio militar alemão à Áustria. A terceira grande crise internacional, em torno do Marrocos em 1911, tinha reconhecidamente pouco a ver com a revolução e tudo a ver com o imperialismo e com as duvidosas operações de homens de negócios piratas, que perceberam suas múltiplas possibilidades. A Alemanha enviou uma canhoneira disposta a se apoderar do porto de Agadir, ao sul do Marrocos, no intuito de obter alguma “compensação” dos franceses por seu “protetorado” iminente sobre o Marrocos, mas foi forçada a recuar pelo que pareceu ser uma ameaça britânica, a de ir à guerra do lado dos franceses; rrelevante se isso foi mesmo proposital ou não.

fig3

A crise de Agadir demonstrou que quase todo confronto entre duas potências importantes agora as levava à beira da guerra. Quando prosseguiu o desmoronamento do Império Turco, com a Itália atacando e ocupando a Líbia, em 1911, e a Sérvia, a Bulgária e a Grécia empreendendo a expulsão dos turcos da península balcânica, em 1912, todas as nações estavam imobilizadas, tanto pela relutância em antagonizar um aliado potencial como a Itália, até então não comprometida com nenhum dos dois lados, como pelo medo de serem arrastadas a problemas incontroláveis pelos Estados balcânicos. Em 1914 ficou provado que tinham razão. Congeladas na imobilidade, viram a Turquia ser quase empurrada para fora da Europa e uma segunda guerra entre os Estados pigmeus balcânicos vitoriosos redesenhar o mapa dos Bálcãs em 1913. O máximo que as potências européias conseguiram foi criar um Estado independente na Albânia (1913), sob o príncipe alemão de costume, embora os albaneses que se preocupavam com o assunto preferissem um aristocrata inglês independente, que mais tarde inspirou as novelas de aventuras de John Buchan. A crise balcânica seguinte foi precipitada em 28 de junho de 1914, quando o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Fernando, visitou a capital da Bósnia, Sarajevo.

O que tornou a situação ainda mais explosiva foi que, justamente nesse período, a política interna das principais potências empurrou sua política externa para a zona de perigo. Após 1905, os mecanismos políticos que serviam para administrar estavelmente os regimes começaram visivelmente a  ruir. Tornou-se cada vez mais difícil controlar, e ainda mais absorver e integrar, as mobilizações e contramobilizações dos súditos em via de se transformarem em cidadãos democráticos. A própria política democrática encerrava um elemento de alto risco, até num Estado como a Grã-Bretanha, que mantinha a verdadeira política externa cuidadosamente oculta, não apenas do Parlamento, como também de parte do gabinete liberal. O que fez a crise de Agadir avançar de uma ocasião de conchavo político potencial a uma confrontação de soma zero foi um discurso público de Lloyd George, que parecia não deixar à Alemanha outra opção além da guerra ou do recuo. A política não democrática era pior ainda. Seria possível não afirmar “que as principais causas da trágica deflagração européia de julho de 1914 foram a incapacidade das forças democráticas da Europa central e oriental controlarem os elementos militaristas de suas sociedades e a rendição dos autocratas, não a seus súditos democráticos leais, mas a seus conselheiros militares irresponsáveis”? E, pior que tudo, os países que estavam enfrentando problemas insolúveis, não se sentiriam tentados a apostar na solução propiciada por um triunfo externo, especialmente quando seus conselheiros militares lhes diziam que, desde que a
guerra era certa, o melhor momento para agir era agora?

Não era, certamente, o caso na Grã-Bretanha e na França, apesar de seus problemas Foi provavelmente o caso na Itália, embora, felizmente, o aventureirismo italiano sozinho não pudesse deflagrar a guerra mundial. Foi o caso na Alemanha? Os historiadores continuam discutindo sobre o efeito da política interna alemã na sua política externa. Parece claro que (como em todas as outras nações) a agitação de direita nas bases incentivou e ajudou a corrida armamentista competitiva, especialmente no mar. Afirmou-se que a inquietação dos trabalhadores e o avanço eleitoral da social-democracia fizeram com que as elites dirigentes se interessassem em desarmar o problema interno por meio do êxito externo. Sem dúvida, havia muitos conservadores que, como o duque de Ratibor, pensavam que era necessária uma guerra para restaurar a antiga ordem, como em 1864-1871.

Provavelmente essa idéia não fez nada mais do que tornar os civis menos céticos em relação aos argumentos de seus generais belicosos. Foi o caso na Rússia? Sim, na medida em que o czarismo, restaurado após 1905 com modestas concessões à liberalização política, viu provavelmente no apelo ao nacionalismo da Grande Rússia e à glória da força militar, sua estratégia mais promissora, com vistas a renascer e se fortalecer. E de fato, se não fosse pela lealdade firme e entusiástica das forças armadas, a proximidade de uma revolução teria sido maior em 1913-1914, que em qualquer outro momento entre 1905 e 1917. Contudo, em 1914 a Rússia com toda certeza não queria a guerra.

Entretanto, havia uma nação que não podia senão apostar sua existência no jogo militar, porque sem ele parecia condenada: a Áustria-Hungria, dilacerada desde meados da década de 1890 por problemas nacionais cada vez mais inadministráveis, dos quais os dos eslavos do sul pareciam ser os mais recalcitrantes e perigosos, por três motivos. Primeiro, porque não só causavam transtornos, como as outras nacionalidades politicamente organizadas no império multinacional, que disputavam vantagens umas às outras, como também complicavam as coisas ao pertencer tanto ao governo de Viena, lingüisticamente flexível, como ao de Budapeste, implacavelmente magiar. A agitação dos eslavos no sul da Hungria, além de transbordar para a Áustria, agravou as sempre difíceis relações entre as duas metades do império. Segundo, porque o problema dos eslavos da Áustria não podia ser desenraizado da política balcânica e, na verdade, ambos estavam ainda mais entrelaçados desde a ocupação da Bósnia, em 1878. Ademais, já existia um Estado independente eslavo no sul, a Sérvia (sem contar Montenegro, um homérico pequeno Estado montanhoso de pastores de cabras hostis, pistoleiros e príncipes-bispos apreciadores das inimizades feudais e sangrentas e da composição de épicos heróicos), o que podia ser uma tentação para os eslavos do sul dissidentes no  império. Terceiro, porque a derrocada do Império Otomano praticamente condenou o Império Habsburgo, salvo se este pudesse demonstrar, sem sombra de dúvida, que ainda era uma grande nação nos Bálcãs, onde ninguém podia se meter.

Até o fim de seus dias, Gavrilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco Fernando, não conseguiu acreditar que sua minúscula iniciativa tivesse ateado fogo ao mundo. A crise final de 1914 foi tão inesperada, tão traumática e, vista retrospectivamente, tão persistente porque foi, essencialmente, um incidente na política austríaca que exigia, na opinião de Viena, que se “desse uma lição na Sérvia”.

A atmosfera internacional parecia calma. Nenhum ministério das relações exteriores esperava problemas em junho de 1914, e personalidades públicas há décadas eram assassinadas com uma certa freqüência. Em princípio, ninguém se preocupou com o fato de uma grande nação intervir pesadamente num vizinho pequeno e problemático. Desde, então cerca de cinco mil livros foram escritos para explicar o aparentemente inexplicável: como, dentro de pouco mais de cinco semanas após Sarajevo, a Europa se encontrava em guerra. A resposta imediata parece agora tão clara, como simples: a Alemanha decidiu dar apoio total à Áustria, ou seja, não acalmar a situação. O resto seguiu-se inexoravelmente. Pois, em 1914, qualquer confronto entre os blocos em que se esperasse que um dos do is lados recuasse, os levava à beira da guerra. Além de um certo ponto, as mobilizações inflexíveis das forças militares, sem as quais tal confronto não mereceria credibilidade, não podiam retroceder. A desmobilização não poderia mais desmobilizar, mas apenas destruir. Em 1914, qualquer incidente, por mais aleatório que fosse, até a ação de um terrorista estudantil ineficaz num canto perdido do continente, podia levar a esse confronto, se alguma nação isolada, presa ao sistema de bloco e contrabloco, escolhesse levá-lo a sério. Assim, a guerra chegou e, em circunstâncias comparáveis, chegaria outra vez.

Em suma , as crises internas e internacionais, nos últimos anos anteriores a 1914, fundiram-se. A Rússia uma vez mais ameaçada pela revolução social, a Áustria desafiada pela desintegração de um império múltiplo não mais controlável, e até a Alemanha polarizada e talvez ameaçada pelo imobilismo devido a suas divisões políticas, todos eles pendiam para o lado de seus militares e suas soluções. Até a França, unida por uma relutância a pagar impostos e, portanto, a conseguir as verbas necessárias para um rearmamento maciço (era mais fácil prolongar outra vez o serviço militar para três anos), elegeu em 1913 um presidente que conclamou à vingança contra a Alemanha e emitiu ruídos belicosos, fazendo eco aos generais que agora, com otimismo assassino, abandonavam uma estratégia defensiva por um assalto ofensivo do outro lado do Reno. Os britânicos preferiam os navios de guerra aos soldados: a marinha sempre fôra popular, uma glória nacional passível de ser aceita pelos liberais como protetora do comércio. As cicatrizes navais tinham charme político, ao contrário da reforma do exército. Poucos, mesmo entre seus políticos, perceberam que os planos para uma guerra conjunta com a França implicava um exército maciço e finalmente a convocação, e de fato não tinham em vista nada além de uma guerra basicamente naval e comercial. Contudo, embora o governo britânico tenha se mantido pacífico até o último momento ou antes, se recusou a tomar posição, temendo uma divisão do governo liberal, ele não podia pensar em ficar fora da guerra. Felizmente, a invasão alemã da Bélgica, há muito preparada pelo plano Schlieffen, propiciou a Londres uma cobertura moral para  necessidades diplomáticas e militares.

Mas como reagiriam as massas da Europa a uma guerra que não podia senão ser uma guerra de massas, já que todos os beligerantes, salvo os britânicos, se prepararam para lutar com exércitos de recrutas de enormes dimensões? Em agosto de 1914, antes mesmo da deflagração das hostilidades, 19 milhões e potencialmente 50 milhões de homens armados estavam frente a frente de um lado e de outro das fronteiras. Qual seria a atitude dessas massas quando convocadas e qual seria o impacto da guerra entre os civis, especialmente se, como alguns militares  argutamente suspeitavam, embora quase não levando o dado em conta em seus planos, a guerra não terminasse rapidamente? Os britânicos eram particularmente sensíveis a esse problema, pois dispunham apenas de voluntários para reforçar seu exército regular modesto de 20 divisões (comparado com 74 da França, 94 da Alemanha e 108 da Rússia), porque as classes trabalhadoras eram sustentadas, sobretudo com alimentos despachados de navio do ultramar, o que era extremamente vulnerável a um bloqueio, e porque nos anos imediatamente anteriores à guerra, o governo enfrentara agitação e tensão sociais inéditas na memória das pessoas vivas à época, e uma situação explosiva na Irlanda. “A atmosfera de guerra”, pensou o ministro liberal John Morley, “não pode ser propícia à ordem num sistema democrático que está à beira do espírito de 1848”. Mas a atmosfera interna das outras nações também era de natureza a inquietar seus governos. É um erro pensar que em 1914 os governos se precip itaram à guerra para desativar suas crises sociais internas. No máximo, calcularam que o patriotismo minimizaria as resistências mais graves e a não-cooperação.

Nisso eles estavam certos. A oposição liberal, humanitária e religiosa à guerra sempre fora insignificante na prática, embora nenhum governo (com a exceção eventual da Grã-Bretanha) estivesse disposto a reconhecer uma recusa a prestar serviço militar por objeção de consciência. Os movimentos trabalhista e socialista organizados, em seu conjunto, se opunham ardentemente ao militarismo e à guerra, e o Partido Trabalhista e a Internacional Socialista inclusive se engajaram, em 1907, numa greve geral internacional contra a guerra, mas políticos teimosos não levaram o fato muito a sério, embora um extremista de direita tenha assassinado o grande líder e orador socialista francês Jean Jaurès poucos dias antes da guerra, quando ele tentava desesperadamente salvar a paz.
Os principais partidos socialistas foram contra essa greve, poucos acreditavam que fosse viável e, de qualquer maneira, como Jaurès reconheceu “uma vez deflagrada a guerra, não podemos fazer mais nada”. Como vimos, o ministro do Interior da França nem se incomodou em prender os perigosos militantes antiguerra, dos quais a polícia preparara cuidadosamente uma lista com esse intuito. A dissidência nacionalista não demonstrou imediatamente ser um fator grave. Em suma, a convocação do governo ao alistamento não enfrentou uma real resistência.

Mas os governos se enganaram no que tange a um ponto crucial: foram pegos totalmente de surpresa, assim como os que se opunham à guerra, pela extraordinária vaga de entusiasmo patriótico com que seus povos pareciam mergulhar num conflito no qual ao menos 20 milhões de pessoas seriam mortas ou feridas, sem contar os incalculáveis milhões de nascimentos que deixaram de acontecer e o excesso de mortes civis devido à fome e à doença. As autoridades francesas previam 5 a 13 por cento de deserção: na verdade apenas 1,5 por cento se esquivou ao recrutamento em 1914. Na Grã-Bretanha, onde havia a mais forte oposição política à guerra e onde ela estava profundamente enra izada na tradição, tanto na liberal quanto na trabalhista e socialista, o número de voluntários nas primeiras oito semanas foi de 750 mil, mais um milhão nos oito meses seguintes.

Os alemães, como previsto, nem sonharam em desobedecer às ordens. “Como alguém vai poder dizer que não amamos nossa pátria, quando após a guerra tantos milhares de nossos bons companheiros do partido dizem “fomos condecorados por heroísmo?”. Assim escreveu um militante social-democrata alemão, tendo recebido a Cruz de Ferro em 1914. Na Áustria não foi só o povo dominante que foi abalado por uma breve onda de patriotismo Como reconheceu o líder socialista austríaco Victor Adler, “mesmo entre as nacionalidades, lutar na guerra era uma espécie de libertação, uma esperança de que algo diferente viria”. Até na Rússia, onde haviam sido previstos um milhão de desertores, todos, salvo poucos milhares dos 15 milhões, obedeceram à convocação.

As massas seguiram as bandeiras de seus respectivos Estados e abandonaram os líderes que se opuseram à guerra. Na verdade, deles restavam poucos, ao menos em público. Em 1914, os povos da Europa foram alegremente massacrar e ser massacrados, por pouco tempo, no entanto. Após a Primeira Guerra Mundial, isso nunca mais aconteceu.

O momento os surpreenderá, mas não mais pelo fato da guerra, ao qual a Europa se habituaria, como alguém que vê uma tempestade se aproximando. De certo modo sua chegada foi amplamente sentida como uma libertação e um alívio, sobretudo pelos jovens da classe média, homens, muito mais que mulheres, embora menos pelos operários e menos ainda pelos camponeses.

Como uma tempestade, ela rompeu o abafamento da espera e limpou o ar. Significou o fim da superficialidade e da frivolidade da sociedade burguesa, do tedioso gradualismo da melhoria do século XIX, da tranqüilidade e da ordem pacífica que era a utopia liberal para o século XX e que Nietzsche denunciara profeticamente, junto com a “pálida hipocrisia administrada por mandarins”.

Após uma longa espera no auditório, significou a abertura da cortina para o início de um drama histórico grandioso e empolgante do qual o público descobriu ser o elenco. Significou decisão. O fato de a guerra ter sido o momento da transposição de uma fronteira histórica, uma daquelas raras datas que marcam a periodização da civilização humana teria sido reconhecido como algo mais que uma conveniência pedagógica? Provavelmente sim, apesar da esperança muito disseminada numa guerra curta, num retorno previsível à vida normal e à “normalidade” retrospectivamente identificada a 1913, presente em tantas das opiniões registradas de 1914. Até as ilusões dos jovens patriotas e militaristas, que mergulharam na guerra como num elemento novo, “como nadadores na pureza saltando”, implicaram mudanças profundas. O sentimento da guerra como fim de uma época era talvez mais forte no mundo da  política, embora poucos tivessem uma consciência tão clara como o Nietzsche dos anos 1880 da “era de guerras, levantes [Umstürze], explosões monstruosas [ungeheure]” que começara, ainda menos numerosos foram os de esquerda que, interpretando a seu próprio modo a guerra, nela viam esperança, como Lenin. Para os socialistas a guerra era uma catástrofe dupla e imediata, pois, como movimento dedicado ao internacionalismo e à paz, foi subitamente reduzido à impotência, e a vaga de união nacional e patriotismo sob a direção das classes dirigentes tomou conta, embora momentaneamente, dos partidos e até do proletariado com consciência de classe dos países beligerantes. Entre os estadistas dos antigos regimes houve ao menos um que reconheceu que tudo mudara. “As lâmpadas estão se apagando na Europa inteira”, disse Edward Grey ao ver as luzes da sede do governo  inglês apagadas na noite em que a Grã-Bretanha e a Alemanha entraram em guerra. “Não as veremos brilhar outra vez em nossa existência.”

Temos vivido, desde agosto de 1914, no mundo de guerras, levantes e explosões monstruosas que Nietzsche profeticamente anunciou. Isto que envolve a era anterior a 1914 com a névoa da nostalgia, uma tênue idade de ouro, de ordem e de paz, de perspectivas não problemáticas. Tais projeções passadas de bons velhos tempos imaginários pertencem à história das últimas décadas do século XX, e não das primeiras. Os historiadores dos dias anteriores ao apagar das luzes não pensavam nelas. Sua preocupação central, que perpassa este livro, deve ser a de entender e mostrar como a era da paz, da civilização burguesa confiante e cada vez mais próspera, e dos impérios ocidentais, carregava inelutavelmente dentro de si o embrião da era da guerra, da revolução e da crise que marcou seu fim.” (Eric J. Hobsbawm)

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